O monólogo de uma hora é um verdadeiro encontro íntimo entre o pai poeta e sua filha cronista durante uma vida cheia de distâncias
A quem já foi impactado por um poema, saiba que estamos emanando a mesma energia. Aquelas palavras que para muitos parecem se deslocar de maneira sem sentido, para os amantes da literatura tornam-se belas em meio à um papel branco. Um grande representante desse estilo poderoso de transformar palavras em sentimento é nosso amigo Carlos Drummond de Andrade. Sim, depois de escrever esse texto, é assim que me sinto: amiga do poeta. Isso se deve ao fato de entender melhor o espetáculo ‘Cartas de Maria Julieta e Carlos Drummond de Andrade’, que passou por Goiânia na última quinta-feira (19), no Teatro Sesc Centro.
O espetáculo é um verdadeiro encontro íntimo entre um pai e uma filha. A trama é construída a partir da correspondência entre o poeta Carlos Drummond de Andrade e sua filha Maria Julieta, durante sua infância, adolescência e vida adulta. Em uma entrevista cheia de memórias para a OLLI Magazine, a atriz Sura Berditchevsky conta sobre como a obra a tocou pessoalmente. “Eu conheci Carlos e Maria Julieta no Tablado, por isso minha proximidade com a família e meu cuidado com o projeto”, inicia. Ela lembra ainda o carinho que o poeta teve quando escreveu para um de seus livros infantis e reafirma sua admiração pelo escritor.
Voltemos ao início. Tudo começou com a ideia de Pedro Drummond, filho e neto dos personagens principais da peça, de resgatar a infinidade de correspondência de seus familiares. Ela topou entrar nessa jornada e passaram quase um ano imersos nessas cartas que trouxeram tanta emoção para o palco do Teatro Sesc Centro. “Foram fins de semanas, feriados, vários dias dentro do gabinete, no próprio apartamento do Carlos Drummond de Andrade, que estava intacto. Foi um trabalho incrível e emocionante por trazer junto com a história da família, também um recorte de uma época”, explica a atriz.
Apesar de não saber como transformar essas lindas cartas em teatro no primeiro momento, Sura e Pedro se dedicaram neste trabalho. Em um momento nostálgico, a atriz conta que não quis entregar a responsabilidade para alguém que talvez viesse a não entender a importância do projeto e ela mesma escreveu a peça. A dramaturga escolheu percorrer a história em ordem cronológica e se apegou as cartas da infância. “Foi especial acompanhar a trajetória de Maria Julieta e seu pai desde a sua infância na década de 30 em Minas Gerais, adolescência no Rio de Janeiro e a vida adulta dividida em Buenos Aires e sua volta para terras cariocas”.
Antes da pandemia, ‘Cartas de Maria Julieta e Carlos Drummond de Andrade’, que conta com direção de Luis Fernando Philbert, rodou diversas cidades, inclusive em Portugal. Agora, muitas cidades também terão a oportunidade de prestigiar essa história de cuidado e muito amor. O monólogo é uma ótima oportunidade para os amantes do poeta de vê-lo para além de sua obra, mas como um ser humano. Para aqueles que não o conhece, vale a pena dar o start com a peça. Sura destaca sua alegria em ver seu desejo de disseminar a importância e extensão da obra dessa família e evidenciar essa relação realizado.
Sura vê o espetáculo de uma hora como uma oportunidade de jovens experienciar novas sensações. “Seria muito bacana me apresentar para alunos do ensino médio ou universidades, uma troca muito rica”. Então jovens, me escutem: não deixem de ir ao teatro, sejam vocês a geração que resgata histórias como esta. Para concluir, apesar do triste fim de Maria Julieta, acometida por um câncer, e de Carlos Drummond, que morreu 12 dias depois, a lição é: apesar da distância, o que prevalece são relações que existem amor. O que resultou em um trabalho leve por meio de palavras, já que ela é uma cronista e ele um poeta.
O Sesc Centro acertou na escolha e Marcelo Castro, Assessor Técnico e Produtor Cultural da instituição, concorda. “A seleção da programação como um todo é feita com muito cuidado e carinho. Queremos oferecer experiências enriquecedoras e diversificadas para todos, nos preocupando sempre com a relevância e qualidade artística. Além de um agradável momento, oportunidade única de vivenciar histórias”, diz. A atriz finaliza dizendo que está muito feliz por ter voltado à Goiânia e te digo Sura, nós também. Foi um prazer entender essa relação entre duas figuras tão importantes para o Brasil por meio da sua interpretação. Viva o teatro!
